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Abordagem ventilatória na Atrofia Muscular Espinhal:
"a evidência de um protocolo não invasivo"
Miguel
R. Gonçalves
Unidade de Fisiopatologia Respiratória e Ventilação
- Serviço de Pneumologia.
Unidade de Cuidados Intensivos - Serviço de Urgência.
Hospital Universitário de S. João, Porto, Portugal.
A Atrofia Muscular Espinhal (AME) é uma das doenças
neuromusculares mais comuns. Ela é caracterizada em
quatro tipos de acordo com a sua severidade. As do tipo I
a criança nunca terá capacidade de sentar-se
sozinha e menos de 20% dessas crianças sobrevivem até
os 4 anos e geralmente morrem por complicações
respiratórias a SMA do tipo II as crianças tem
capacidade de sentar - se sozinhas mas nunca de andar e apresentam
períodos de falência respiratória.
Para a AME tipo I as complicações respiratórias
ocorrem entre o nascimento e os 2 anos e meio de vida. Este
tipo de doentes sofrem de fraqueza generalizada dos músculos
respiratórios, mas os seus níveis respiratórios
poderão encontrar-se normais. No entanto estas crianças
normalmente entram em falência respiratória devido
a uma infecção respiratória, que surge
devido à acumulação de secreções
visto que, estes doentes não têm força
para as expelir e estas acabam por infectar. Assim a criança
é admitida em unidades de cuidados intensivos onde
a aspiração não resolve a obstrução
e o oxigénio apenas contribui para uma maior retenção
de dióxido de carbono e a criança acaba necessitando
de suporte ventilatório. Convencionalmente as infecções
respiratórias resultam em pneumonias repetidas, em
hospitalizações recorrentes, em entubamentos
endotraqueais e em ultima instancia em traqueostomias e morte.
A AME tipo I tem uma mortalidade ao fim de quatro anos superior
a 80%. As novas opções de tratamento respiratório
permitem, agora, um prolongamento da vida das crianças
com AME tipo I.
De acordo com um protocolo desenvolvido por John R. Bach nos
Estados Unidos da América, é possível
evitar o recurso á traqueostomia para ventilar as crianças
com AME de todos os tipos, diminuindo assim as complicações
e aumentando a sua sobrevida e a qualidade de vida. As complicações
da traqueostomia como as hemorragias, aspirações,
enfisema, lesão tecidular e infecção
podem ocorrer de forma precoce. Mais tardiamente há
a possibilidade de aparecimento de estenose traqueal, traqueomalácia,
hemorragia, infecções brônquicas recorrentes,
obstrução e/ou desconexão da cânula,
especialmente durante a noite.
Vários estudos provaram que, com as actuais técnicas
não invasivas de avaliação e de tratamento,
não se deve colocar a hipótese de recorrer a
uma traqueostomia num doente neuromuscular, a não ser
que haja compromisso dos músculos bulbares, como acontece
em alguns casos de Esclerose Lateral Amiotrófica. No
caso dos doentes já terem um tubo de traqueostomia,
hoje em dia com as mais recentes técnicas de Ventilação
Mecânica Não Invasiva (VMNI), é possível
fazer um desmame seguro para a máscara nasal e/ou peça
bucal.
A grande dificuldade em intervir nestes doentes está
na má interpretação dos sintomas, porque
não é feita uma avaliação adequada
e são tomadas as decisões clínicas erradas
que trazem conseqüências graves a longo prazo.
Nestes doentes é necessária uma avaliação
rigorosa e objectiva direccionada para a mecânica ventilatória.
Deve-se começar por avaliar a sintomatologia, o aumento
da freqüência respiratória, alterações
do ritmo cardíaco e tensão arterial, a simetria
toraco-abdominal (respiração paradoxal), a diminuição
da eficácia da tosse, alterações da fala
e da deglutição e a influencia da posição
na função respiratória.
Segundo o protocolo de Bach, que nós temos vindo a
seguir nestes doentes, é
importante a introdução precoce da VMNI por
máscara nasal durante o sono (Figura 1), logo que a
criança comece a desenvolver um padrão respiratório
toraco-abdominal do tipo paradoxal, de modo a prevenir as
disfunções respiratórias que começam
durante o sono. Assim a criança ganha tolerância
progressiva a esta técnica e poderá dormir de
uma forma mais segura. Está provado também que
a introdução precoce de VMNI com pressões
altas (IPAP - 18 a 20cmH2O; EPAP - 4cmH2O), promove o crescimento
saudável da caixa torácica, prevenindo o aparecimento
de deformações torácicas como o pectus
escavatum. Para além de todas estas vantagens, a introdução
precoce da VMNI, nestas crianças permite uma extubação
directa para a VMNI em casos de agudização.
Tal facto deve-se ao facto de a criança já estar
habituada a esta terapêutica e quando é extubada,
consegue tolerar melhor, evitando assim o recurso à
traqueostomia. O protocolo eficaz de extubação
directa para a VMNI em crianças com AME tipo I foi
descrito e publicado nos seguintes estudos.
1 Bach JR, Niranjan V, Weaver B. Spinal muscular atrophy
type 1: A noninvasive respiratory management approach. Chest
2000; 117:1100-1105
2 Bach JR, Baird JS, Plosky D, et al. Spinal muscular atrophy
type 1: management and outcomes. Pediatr Pulmonol 2002; 34:16-22
3 Bach JR, Goncalves M. Ventilator weaning by lung expansion
and decannulation. Am J Phys Med Rehabil 2004; 83:560-568
Os resultados descritos nestes estudos deverão ser
tidos em conta em todas as unidades de cuidados intensivos
que abordam estes doentes, de modo a que possam tentar aplicar
esta abordagem ventilatória não invasiva em
alternativa á traqueostomia.
Na grande maioria dos doentes neuromusculares, para não
dizer na sua totalidade, a capacidade de tosse está
francamente reduzida, devido a fraqueza dos músculos
inspiratórios e expiratórios, bem como á
diminuição da Capacidade Vital. Está
estudado que uma tosse eficaz requer uma inspiração/insuflação
acima de 85% da Capacidade Vital. Quando as técnicas
manuais de fisioterapia respiratória são insuficientes
para promover uma correcta desobstrução brônquica,
principalmente em alturas de acumulação excessiva
de secreções, a alternativa mais eficaz é
o uso do mecanismo da IN-Exsuflação mecânica
promovido por uma máquina denominada CoughAssist (J.H.
Emerson Company, Cambridge Mass) ( Figura 2).
O princípio fisiológico desta máquina
consiste na aplicação de uma forte pressão
positiva (normalmente dos 35 - 45cmH2O) seguida de uma forte
pressão negativa de valor proporcional. A diferença
obtida entre as duas pressões gera o mecanismo fisiológico
da tosse e permite a progressão de secreções
das pequenas para as grandes vias aéreas contribuindo
de uma forma relevante para uma boa higiene brônquica.
Todo este processo é realizado de uma forma não
invasiva através de uma máscara facial. No entanto
esta máquina poderá ser aplicada também
num contexto de cuidados intensivos quando aplicada em doentes
intubados dando um forte contributo para a extubação
e passagem para a VMNI conforme descrito anteriormente.
Nas crianças com AME tipo I, a aplicação
desta técnica de uma forma não invasiva, não
é possível nos primeiros 12 meses, uma vez que
a criança não colabora. Nestas idades, se a
criança entrar em falência respiratória
por acumulação de secreções, tem
que ser intubada e realizar sessões de CoughAssist
pelo tubo endotraqueal. A partir dos 12 meses a aplicação
domiciliária deste mecanismo, permite à criança
permanecer com uma terapêutica ventilatória não
invasiva, não necessitando de ser internado em cuidados
intensivos para que haja um alívio das secreções
brônquicas evitando assim todas as complicações
da ventilação invasiva, bem como promovendo
uma melhor tolerância à ventilação
não invasiva.
Podemos assim concluir com base neste capítulo que é possível
prevenir as complicações respiratórias
e evitar o recurso à ventilação invasiva
em doentes com AME, contudo é importante que se criem
condições favoráveis à expansão
desta técnica, condições essas, que não
passam unicamente pela divulgação da mesma,
mas também por uma mudança de atitudes e
práticas que envolve o contributo e vontade de
adquirir novos conhecimentos por parte dos profissionais de
saúde. É importante salientar que a utilização
da VMNI associada á aplicação do CoughAssist,
poderá não só melhorar a qualidade de
vida dos doentes neuromusculares, mas também, aumentar
a sua sobrevida.
Penso que mais do que um alerta, é um dever ético divulgar estas
abordagens e seus princípios fundamentais, visto que
a avaliação precoce e o estabelecimento de objectivos
são a base para o sucesso da intervenção.
Tradicionalmente o doente neuromuscular é visto como
um "sofredor" respiratório que, devido à
progressão da doença é lhes dito que
é "normal" esse sofrimento e que têm
de aprender viver com ele. Na minha opinião o doente
neuromuscular não é um doente respiratório
de raiz, e se lhe for fornecido as correctas ajudas técnicas
aos músculos respiratórios, esse doente não
tem que sofrer de problemas respiratórios, tem sim
de aprender a viver feliz, respirando de uma forma diferente.
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| Figura 1 |
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Figura 2 |
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